Tim Burton é um cineasta com uma visão muito peculiar, quase todos os seus filmes são maravilhas visuais que muitas vezes deslumbram o espectador. No entanto como quase tudo na vida, chega a um ponto que a corrente criativa acaba por abrandar e até estagnar. Nem sempre ele consegue manter os níveis de qualidade e originalidade que nos habituou, algo mais gritante a meu ver em grandes produções que envolvem mais dinheiro e menos liberdade criativa.
Ao contrário do que se podia pensar, esta versão da história da Alice não é uma reimaginação dos livros, mas sim uma sequela. Alice é agora uma adolescente a caminho dos 20 anos que ainda tem memórias das suas aventuras passadas, no entanto não se recorda de nada e interpreta-as apenas como sonhos. Após uma proposta de casamento forçada, Alice volta a seguir o coelho branco toca abaixo e lá reencontra o Pais das Maravilhas.
“Alice no Pais das Maravilhas” nunca consegue manter um ritmo coerente e quase sempre se nota que anda perdido sem saber que rumo tomar. É compreensível a dificuldade de passar o universo da Alice para filme, já que os próprios livro são muito pouco ortodoxos e envolvem muitas e diferentes situações estranhas, sendo que muitas delas são extremamente non sense. Mas o facto de ser uma sequela libertaria um pouco do fardo que seria seguir os livros à letra, é pena que não o tenham conseguido fazer. O resultado acaba por ser uma história previsível, que passa grande parte do tempo a moer sem necessidade. Basta ver a primeira e ultima meia hora para perceber todo o filme. A mensagem de emancipação feminina que o filme tenta passar é demasiado forçada e inserida “às sete pancadas”.
Muito do filme não é mais que fan service, ou seja, tentam meter todos os personagens dos livros em cena, mesmo que a sua presença não faça grande sentido, isso resulta numa multidão de personagens completamente superficiais e sem qualquer real utilidade para a narrativa. No entanto alguns dos personagens mais memoráveis e carismáticos como o gato Cheshire (muito bem interpretado por Stephen Fry) e a Lagarta (Alan Rickman) marcam muito boa presença, eles são exactamente o que imaginava ao ler os livros. Obviamente o papel de Chapeleiro Louco tem grande destaque, afinal de contas é interpretado por Johnny Depp, mas a sua pequena história secundária só serve para quebrar o ritmo do filme. A adorável Mia Wasikowska em alguns momentos mostra traços da Alice reguila e respondona dos livros, mas basicamente é apenas um veiculo para Tim Burton mostrar o universo do filme.
Visualmente é um filme bonito e consegue cativar e deslumbrar em alguns pontos, o aspecto quase cartoon entra bem no espírito do filme. O CGI devia ser melhor, principalmente nas animações de alguns personagens e na interacção entre actores reais e virtuais. A banda sonora de Danny Elfman é surpreendentemente invisível e desinteressante.
Dá a sensação que “Alice no País das Maravilhas” não foi um projecto muito acarinhado e não houve grande entrega por parte de todos os intervenientes. Não há alma, não há paixão e falta alguma da chama que Tim Burton coloca nos seus projectos mais pessoais. Parece mais um produto artificial que uma criação apaixonada, e é pena, porque as obras de Lewis Carrol mereciam algo melhor.
















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