LOST

No quinto episódio, denominado “White Rabbit” enquanto referência literária a “Alice in Wonderland” de Lewis Carroll, da primeira temporada de LOST tivemos o primeiro vislumbre do passado de Jack vivido na sombra do seu pai, uma relação tortuosa que abalou as vidas de ambos ao ponto da ruptura ser irreparável. Na Ilha perseguia inconsequentemente o fantasma do falecido pai numa tentativa desesperada de apaziguar o sentimento de culpa e angústia que causou a separação de ambos.

Lighthouse“, o quinto episódio da última temporada da série, é carregado de reflexos, imagens idênticas mas que nunca podem ser sobrepostas. Seja na superfície de uma pequena lagoa ou de um espelho, Jack observa-se cuidadosamente em busca de respostas. Fora da Ilha e na realidade paralela Jack continua a procurar o caixão do seu pai, perdido no voo que o trouxe da Austrália. Novamente existem aqui ligações entre as duas realidades e as duas imagens reflectidas quando Jack olha para a cicatriz da sua apendicectomia sem se lembrar quando tal tinha acontecido. A sua mãe lembrou-o que tinha sido aos oito anos mas ele parece continuar sem conseguir conjurar essa memória. De lembrar que Jack teve uma apendicite aguda em adulto na Ilha o que obrigou Juliet a uma operação primitiva. É interessante pensar que o Jack da realidade paralela teria 8 anos em 1977, o ano do incidente ou detonação da bomba na Ilha. Estaria enquanto criança já a reflectir existências análogas?

Nesse episódio da quarta temporada vimos Jack a falhar miseravelmente enquanto pai adoptivo de Aaron, que parece continuar a ser procurado na Ilha por uma Claire, irmã ilegitima de Jack, quase irreconhecível, levada à loucura, tal como Rousseau, pela dor da separação com o seu filho. Aqui, num episódio claramente reservado ao assombramento de relações paternais, vemos paralelamente Jack a falhar com o seu filho verdadeiro, uma surpresa que não deixa de causar a mesma indelével sensação de imagem reflectida, porque vemos Jack repetir os mesmos erros do seu pai e a viver actualmente uma relação distante e sofrida com o filho David, que outrora pareceu ser harmoniosa. Mas nem as recordações partilhadas, como a leitura de “Alice in Wonderland” quando era criança – que também aconteceu antes de desistir de Aaron, parecem conjurar a felicidade perdida.

Contudo, aqui, Jack parece aperceber-se que se tornou exactamente naquilo que tanto temia e o afastava do seu pai, uma figura que via como autoritária e símbolo da punição de potenciais falhas, quaisquer que elas fossem. Ao ver que David esconde a sua paixão pela música, algo que Jack sempre teve de esconder do seu progenitor por medo de silenciosa reprovação, confessa-se ao seu filho mostrando o quão orgulhoso se sente e o quão importante para ele é tê-lo na sua vida. Uma cena absolutamente dilacerante que mostra pela primeira vez um Jack capaz de redenção e, vendo-se através dos olhos do seu filho, optar pela negação de mais sofrimento. Estas personagens paralelas parecem ter encontrado neste mundo tudo aquilo que lhes falta na realidade da Ilha e tornarem-se completos.

Lá, Hurley leva Jack a mais um pedaço da mitologia da Ilha: o farol. No topo descobre que nos ângulos da pedra circular que leva à rotação do mecanismo de espelhos do farol se encontram os nomes riscados de várias pessoas, salvo alguns, muito à semelhança do que Sawyer viu no episódio passado, entre os quais o seu. E quando a rotação dos espelhos batia certo com o seu número 23 viu reflectida a imagem da sua antiga casa, símbolo supremo da sua infância atormentada. Encolerizado com Jacob e os seus estranhos desígnios destrói a máquina, mas no final parece ter finalmente encontrado o seu caminho, muito à semelhança do seu reflexo paralelo, um primeiro indício que irá afastar-se do Jack ‘quebrado’ que o fez voltar à Ilha. Mas será a existência deste farol uma maneira de Jacob seleccionar os candidatos para o seu lugar ou deles, inclusivamente Jack, verem tudo aquilo que a vida deles pode ser? Uma visão ‘through the Looking Glass’, outra referência a Lewis Carroll e o nome do episódio em que foram introduzidas as vidas infernais dos sobreviventes fora da ilha. No entanto o reflexo deverá ser precisamente o oposto…

LOST

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